Postos em mutação

Revendedores de combustíveis mudam de perfil e ampliam a oferta de serviços


Por Tadeu Masano
Tadeu Masano
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O setor de combustíveis passou por transformações radicais nos últimos 20 anos. Houve o aumento da produção do petróleo (o Brasil já está entre os 20 maiores produtores do mundo), a ascensão e a queda da produção do álcool e as mudanças na ponta da distribuição com a remodelação dos pos tos e do seu mix de serviços. Só em São Paulo há cerca de 2 000 postos para abastecer os mais de 5 milhões de veículos registrados.

Após a segunda crise do petróleo, em 1979, o Proálcool uniu a indústria, a agricultura e o varejo para fazer dos veículos a álcool um sucesso. De lá para cá, muita coisa mudou. Em 1985, em São Paulo, consumiam-se 60 litros de álcool para cada 100 de gasolina. No ano passado, a proporção foi de 13 por 100. Se considerados a gasolina e o álcool, o consumo entre 1995 e 2001 caiu cerca de 20% na capital. A queda ocorreu por causa da implementação do rodízio de veículos em 1997 e, mais recentemente, pela perda do poder aquisitivo da população.

Na ponta da distribuição, com a criação da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em 1997, ocorreu a liberação da obrigatoriedade de marcas, o que levou a uma mudança nas bandeiras em São Paulo. O mercado, até então dividido entre as grandes marcas (Shell, BR, Ipiranga, Esso e Texaco ainda possuem 65% dos postos), assistiu ao desaparecimento da bandeira Atlantic e ao surgimento da Agip. Mas a grande transformação foi nos chamados postos de "bandeira branca" ou de "pequenos distribuidores", que totalizam hoje perto de 700 unidades na cidade. Outra mudança é o surgimento dos postos com gás natural veicular (GNV): apesar do elevado custo de implantação, já somam mais de 70 unidades na capital.

Um dado relevante é que a área do rodízio de veículos concentra a economia e os negócios de São Paulo. Essa região -- equivalente a 10% do território do município, onde vive só 14% da população -- reúne 34% dos postos da capital, 51% dos chefes de família de alta renda e 50% dos empregos formais.

Outro aspecto importante é a mudança no mix de produtos e serviços oferecidos nos postos. Quase 90% dos postos na capital realizam troca de óleo, mas apenas cerca da metade faz a lavagem completa do carro. Além disso, 30% dos postos já têm loja de conveniência, que desponta como um novo canal de distribuição -- são mais de 550 lojas na cidade. Há também cerca de 250 caixas eletrônicos de bancos instalados nos postos. Muitos complementam o mix com lavanderia, farmácia, floricultura, videolocadora e até agências de automóveis.

A forma de pagamento também vem mudando. O vale-transporte, largamente aceito pelos perueiros, pode ser trocado por combustível em mais de um terço dos postos. Cabe notar que 85% dos postos que aceitam passe ou vale-transporte localizam-se fora da área de rodízio. Como normalmente eles pagam 1,25 real para um valor de face de 1,40 real, o preço médio da gasolina tende a ficar mais alto na periferia do que na área mais rica da cidade. Só falta, além de tudo, estar "batizada".

Radiografia dos postos
Consumo na cidade de São Paulo (em mil m3)
  1985 1995 2001
Gasolina 1 493 2 190 2 514
Álcool 899 1 402 325
Diesel 442 516 682
Total 2 834 4 108 3 521
Indicadores Área do rodízio (%) Fora do rodízio (%)
Postos de combustíveis 34 66
População 14 86
Área 10 90
Estimativa de empregos 50 50
Serviços (%) ocorrências
Troca de óleo 79 88
Lavagem completa 55 39
Loja de conveniência 29 29
Caixa eletrônico 10 8
Meios de pagamento (%) ocorrências
Cartão de crédito 72 70
Cartão de débito 73 77
Tíquete-combustível 36 29
Tíquete-combustível Vale-transporte 15 45
Fontes: ANP/Estudos Empresariais - Geografia de Mercado

Tadeu Masano, doutor em planejamento urbano pela FAU-USP, é professor na Fundação Getulio Vargas de São Paulo e presidente da consultoria Geografia de Mercado