Bit bem passado
Como o chef Tadeu Masano criou uma
empresa que recolhe, peneira e prepara pratos com um único ingrediente: informação

Renata Ursaia
Masano, da Geografia de Mercado: "O segredo é peneirar bem as informações"


Os olhos piscam freneticamente. O corpo inteiro treme. A visão é inundada por imagens sem sentido. Diagnóstico: excesso de informação, tilt na memória, sobrecarga de dados no cérebro. Não se preocupe, caro leitor, trata-se de pura ficção científica. É uma cena do filme Johnny Mnemonic. O ator Keanu Reeves interpreta um agente mnemônico, um mensageiro que transporta informações digitais dentro da própria cabeça. Sua memória tem capacidade para 160 bilhões de bytes — mas é carregada com o dobro disso. O resultado? Pane geral.

Tadeu Masano, um sujeito simpático e bonachão, nem de longe lembra um agente mnemônico. Mas ele armazena uma montanha de informações dentro de sua cabeça e outra em seus computadores. Enquanto para uns o excesso de dados é uma dor de cabeça, para esse administrador de empresas com doutorado em planejamento urbano a sobrecarga da era da informação é um negócio. “Não adianta pegar informação de tudo quanto é lado e jogar tudo num liquidificador”, diz ele. “É muito mais como uma peneira: você vai eliminando, eliminando até encontrar o que procura.”

Especialista em estudos de localização e mapeamento, Masano trabalha com informação pura. Tem uma empresa de consultoria, a Geografia de Mercado. Seu trabalho é encontrar o melhor lugar para um determinado negócio (uma franquia do McDonald’s, uma agência bancária ou um supermercado), com base em gigantescos bancos de dados sobre determinada região ou até mesmo cidades inteiras. Negócios EXAME fez um teste. Quantas padarias existem no Brasil? “Essa é fácil: 42 000”, diz ele. E lojas do McDonald’s? “São 570.” Agências bancárias na cidade de São Paulo? “Umas 1 850.” Resolvemos complicar: e o número de casas com água encanada na periferia de São Paulo? “Essa não é difícil. Com o censo do IBGE daria para fazer uma boa estimativa.” E o número de cibercafés? “Essa eu tenho de parar para pensar. Será que eles precisam de alguma autorização especial para funcionar? Será que os provedores de acesso têm essa informação?”

Subindo o morro

Se todas as informações de que a Geografia de Mercado precisa dependessem apenas de telefonemas, Masano teria uma vida fácil. A coleta dos dados, primeira fase do trabalho da empresa, muitas vezes é para lá de árdua. Num trabalho recente para a Telemar, Tadeu e sua equipe mapearam os cerca de 100 000 telefones públicos do Estado do Rio de Janeiro. A operadora quer atingir antecipadamente as metas da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) — que determinou que até 2003 haja um orelhão a cada 300 metros (hoje, há um a cada 800 metros). A Telemar quer conseguir isso até o fim do ano.

Para fazer o trabalho, Masano colocou um batalhão de pessoas nas ruas do Rio, munidas de mapas e aparelhos de localização por satélite, os GPS. Alguns orelhões estavam dentro de favelas cujo acesso era, digamos, controlado. “Alguns pesquisadores tiveram de dar explicações sobre o que estavam fazendo”, diz Masano. Quando um telefone era encontrado, seu número e localização eram armazenados no aparelho GPS. Mais tarde, essas informações foram transferidas para computadores. As coordenadas de cada orelhão foram então assinaladas num grande mapa digital. Assim foi possível identificar as regiões de vácuo, onde os novos telefones públicos — cerca de 40 000 –- terão de ser instalados. O trabalho -– informação pura — abrangeu mais de 90 municípios, envolveu mais de 100 pessoas e levou um ano para ser concluído. Essa é a tática de Masano: primeiro planejar e depois peneirar. Muito.

De olho na sardinha

Peneiras, liquidificadores e outros aparatos de cozinha, aliás, não aparecem nas idéias de Masano por acaso. Descendente de imigrantes italianos, seu avô e seu pai foram donos de restaurantes, e sua mãe, professora de culinária. Foi inevitável que o pequeno Tadeu aprendesse desde cedo os segredos da cozinha. “Eu passava as férias no litoral de São Paulo, numa praia de pescadores. Aprendi a preparar pratos com peixes e siris”, diz ele. Em 1987, quando voltou para o Brasil depois de uma temporada na França — onde chegou a fazer estágio num restaurante —, decidiu que manteria a tradição iniciada pelo avô. Desde então, ele e a mulher, Ana, são proprietários do Amadeus, um dos melhores lugares para comer peixes e frutos do mar em São Paulo.

Na cozinha, Masano gosta de improvisar e de criar os próprios pratos. Já no mundo dos bits, organização é essencial. Com 16 anos de vida, a Geografia de Mercado acumula uma base de dados considerável. Ao todo já são mais de 100 bilhões de bytes provenientes de mais de uma centena de fontes de informação — como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Fundação Seade, Banco Central, Ministério do Trabalho, Secretaria da Fazenda, prefeituras, entidades de classe e outras. Alguns dados não custam nada, são públicos. Outros são cobrados. A empresa tem também mapas, plantas e fotos aéreas. Está negociando a compra de fotos de satélite de alta precisão. “São fotos de um satélite russo e de um americano”, diz Masano. As imagens vão mostrar ruas e casas com nitidez, como nos filmes de espionagem.

Na Geografia de Mercado, três funcionários se dedicam exclusivamente às atualizações. Alguns dados chegam automaticamente de tempos em tempos. Outros são obtidos mediante solicitação. Já houve casos em que foi preciso provar para a fonte que ela realmente tinha a informação. Foi o caso dos Correios. Masano queria encontrar as áreas correspondentes a cada CEP de São Paulo. Os Correios diziam que não tinham tal informação. Ele mostrou que pela rota dos carteiros era possível descobrir. Conseguiu os dados e até desenvolveu um trabalho em conjunto com a empresa. Para administrar tanta informação, Masano usa quase 30 programas diferentes, entre softwares geográficos — para manipular e gerar mapas —, bancos de dados, sistemas especiais de impressão e outros. “Essas tecnologias deram mais agilidade e precisão aos trabalhos, mas os conceitos permanecem os mesmos”, diz ele. Para fazer sua tese de mestrado, concluída em 1984 — ano em que a Apple colocou no mercado o primeiro Macintosh —, Masano usou máquina de escrever, papel vegetal, lápis colorido, tesoura e cola. O trabalho era sobre localização de supermercados. Fez um estudo de caso em São José do Rio Preto, no interior do Estado de São Paulo. Masano copiou os mapas do IBGE com papel vegetal e marcou com cores os supermercados da cidade e a área de influência de cada um. Fez entrevistas com clientes e avaliou se era viável a entrada de uma nova rede no local.

A maior aliada de Masano — a informação — pode também ser a maior ameaça para seus negócios. Ela se torna cada vez mais disponível, mais acessível. É cada vez mais fácil coletar, armazenar e manipular grandes quantidades de dados. “Isso não me preocupa. Procuro sempre ter as melhores informações”, diz Masano. “É o que eu dizia esses dias para um fabricante de champanhe. O consumidor não precisa tomar um monte de espumante primeiro para depois se interessar por um champanhe francês. Não é uma questão de quantidade, mas de qualidade.” Então, santé. E pode trazer a conta.

Por Érico Guizzo