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São Paulo, urgente
| 01/12/2000
Especialista em geografia urbana mostra
como a cidade pode recuperar sua zona morta Tadeu Masano
EXAME SP Edição(01) Marta
Suplicy assume a prefeitura paulistana cercada de uma expectativa que só
pode ser comparada à que envolve a Seleção Brasileira numa final de Copa
do Mundo. Nunca se depositou tanta fé numa administração municipal
que se inicia. Do outro lado, os desafios são avassaladores. Para
conquistar a posição de líder econômico do país, com cerca de 20% do PIB
nacional, São Paulo pagou um preço alto em injustiças sociais e destruição
do seu território.
A cidade passou nos últimos 100 anos por transições traumáticas. A
primeira mudança foi da agricultura para a indústria. Da cidade que
recebia os recursos do interior do Estado, que aqui chegavam pelas
ferrovias, restam apenas algumas relíquias, como a Estação da Luz e o
antigo Palácio do Governo, no bairro outrora aristocrático dos Campos
Elíseos. A arrancada industrial do pós-guerra multiplicou a população. De
2,2 milhões de habitantes em 1950, a cidade pulou para 5,8 milhões em
1970, abrigando atualmente cerca de 60% dos 17 milhões da região
metropolitana.
Essa multidão de novos moradores teve de se alojar nas beiradas da
cidade, pois as áreas industriais já emolduravam o centro. No mapa, as
fábricas formam o desenho de uma ferradura. O traçado começa na junção dos
rios Tietê e Pinheiros, na altura do Ceagesp, e segue pela Marginal Tietê,
da Lapa até o Brás. Depois, acompanhando o Tamanduateí, avança pela
Mooca e pelo Ipiranga, até perto de se encontrar, ao sul, com o eixo
industrial de Santo Amaro e Interlagos, já na Marginal Pinheiros.
A ferradura industrial dividiu São Paulo em duas, como se fosse o
Muro de Berlim. Dentro dela ficou a parte "boa" da cidade - os bairros da
elite e da classe média alta, dotados do que há de melhor em moradia,
transporte, habitação, saúde, cultura e lazer. Do lado de fora, a imensa
periferia, território dos pobres. A lei municipal do zoneamento, de 1972,
e posteriormente a legislação estadual congelaram a situação, ao
dificultar que se dessem outros usos às regiões industriais.
Hoje São Paulo vive mais uma transição. A metrópole está deixando
para trás o antigo perfil industrial para adotar uma nova vocação, a de
pólo de serviços. O eixo da economia migrou para aquela parte de dentro, a
zona nobre. Muitas fábricas fecharam. Outras se mudaram, atraídas pelas
vantagens oferecidas no interior. O dinamismo deu lugar à estagnação. Mas
a decadente ferradura paulistana continua lá, com seus galpões
semidesertos. Virou uma terra de ninguém.
Na época do auge das chaminés esse jeito de organizar o espaço
urbano podia ser feio e injusto, mas ao menos tinha um sentido prático.
Para o operário que mora em São Mateus, na Zona Leste, o Brás fica bem
mais perto que a Vila Olímpia. Ocorre que, atualmente, os novos empregos
não estão mais nas fábricas, e sim nas empresas do setor de serviços, mais
distantes da periferia. Nelas os profissionais bem pagos, que tiveram a
chance de alcançar o nível universitário, são minoria. A maior parte das
vagas se destina a trabalhadores de baixa qualificação.
Qualquer projeto para salvar São Paulo terá de achar uma nova
função e identidade para a zona morta em que se transformaram os
tradicionais bairros fabris. Em vez de problema, a ferradura pode se
tornar uma solução. Trata-se de uma região que, embora deteriorada,
é provida de uma infra-estrutura invejável. Do sistema viário à rede
de esgotos, tudo o que falta na periferia superpovoada existe de sobra no
cinturão industrial.
O grande desafio da nova administração é recuperar essa região
tão bem localizada e devolvê-la à cidade. Cabe aos poderes públicos
aproveitar o início de gestão na cidade de São Paulo para lançar uma
iniciativa de impacto, que realmente fará diferença sobre a qualidade de
vida na metrópole. Minha sugestão é que o Estado e o município unam
suas forças para criar uma Companhia de Desenvolvimento encarregada de
estimular e de organizar a revitalização dos setores da cidade cuja função
predominante deixou de ser industrial. Um exemplo, em escala mundial,
é a revitalização das margens do Tâmisa, em Londres, na década de 80.
Por meio de projetos públicos e de atrativos para a iniciativa
privada, é possível ressuscitar o anel de ferrugem que envolve São
Paulo. Essa região precisa passar por uma metamorfose radical, e para isso
os governos precisam aprender a usar favoravelmente as regras do jogo
capitalista. A escassez de dinheiro não é um problema insuperável.
Uma companhia de tal porte estará credenciada a captar recursos de
instituições internacionais. Outra parcela do investimento viria da
própria iniciativa privada, por meio de esquemas de contrapartida
semelhantes aos que já foram utilizados, com sucesso, na Nova Faria Lima,
hoje a área mais valorizada da cidade. Por mecanismos que propiciem
aumento de potencial construtivo, empresas assumem tarefas como a
instalação de equipamentos necessários para a população de menor renda ou
remuneram o poder público pelas oportunidades de negócios.
Assim nascerão novos bairros na cidade. Ao longo do anel de
ferrugem podem ser criadas condições para o desenvolvimento de pólos
residenciais, de serviços, de tecnologia, comércio e lazer, e instalados
os grandes centros de congressos e convenções de que São Paulo tanto
necessita para se firmar como uma cidade global. Para essa área
revitalizada seriam transferidas muitas das repartições estaduais e
municipais que hoje estão concentradas nas imediações da Paulista,
reforçando a exclusão social e o desperdício de dinheiro público. A
ferradura renovada - faixa de ligação entre a cidade dos ricos e a cidade
dos pobres - também deve abrigar os centros de treinamento de mão-de-obra
essenciais para enfrentar o desemprego.
A ferradura já conta com uma boa rede de transporte. Num projeto de
renovação, o PITU (Programa Integrado de Transportes Urbanos) implantará
novas linhas e articulará ônibus, metrô, trem e o "fura-fila". Por uma
feliz coincidência, essa região já abriga o Palácio das Indústrias, o
Mercado Central, o Museu do Ipiranga e o maior parque da cidade - o do
Estado.
É impossível exagerar o alcance do empreendimento. A melhor
hora é agora. Nas últimas décadas, a intervenção do poder público na
organização do espaço urbano em São Paulo se deu mais pelo lado negativo
do que por ações construtivas que tornassem a cidade mais hospitaleira. Se
souberem atuar em parceria, a nova prefeita e o governador de São Paulo
terão em suas mãos uma chance de ouro: a de mudar a cara e a alma da
cidade, transformando um símbolo de degradação numa ferradura da sorte.
Tadeu Masano, doutor em planejamento urbano pela FAU-USP,
é professor na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e presidente da
Geografia de Mercado
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