É junho, mês de Copa. Tudo o que se comenta é futebol e
os resultados das sondagens pré-eleitorais. São Paulo é a cidade com
a maior torcida futebolística do mundo. Também é aqui que vive o
maior contingente de eleitores em que o voto, obrigatório, é
permitido aos maiores de 16 anos. Lamentável é que grande parte dos
responsáveis por essas duas atividades, política e futebol, tenha
despertado tanto descrédito na população. Frustrante é que num país
onde cada cidadão é um técnico de futebol a classe dos dirigentes
envergonhe tanto. E que os políticos não tenham conseguido implantar
uma perspectiva socioeconômica engrandecida.
O que
impressiona em São Paulo é a destruição de seu território, quer pela
ocupação de áreas que deveriam ser preservadas, quer por uma lei de
zoneamento anacrônica. Impressiona ainda que os recursos (públicos e
privados) investidos na ocupação do solo sejam tão subutilizados,
muitas vezes mal direcionados, mal conservados ou até mesmo
descartados. É como ir queimando a infra-estrutura instalada e ver
os já escassos recursos se transformando em cinzas. A rua foi
abandonada. Os espaços de convivência reduzidos, o comércio e o
lazer cada vez mais confinados em locais fechados, segregando a
população. Veja que nesse processo o poder público municipal tem um
papel fundamental. A ele cabe determinar, orientar, inibir e
incentivar ações para melhoria da cidade.
Com a força que
tem, a metrópole conseguiu consolidar mais de 50 pólos comerciais de
atração cumulativa ligados a diferentes segmentos. Típico de grandes
cidades mundiais, muitos hoje estão se deteriorando. São regiões
como a da rua Santa Ifigênia (eletroeletrônicos), Gasômetro (artigos
de madeira), Cantareira (alimentos e equipamentos de cozinha),
Consolação (lustres), Florêncio de Abreu (ferramentas), Teodoro
Sampaio (móveis e equipamentos musicais). Existe até um pólo de
chapéus na rua do Seminário. Bastaria um pouco de imaginação e ações
relativamente simples, coordenadas pelo poder público e apoiadas
pelas associações de lojistas, para que essas áreas fossem
revitalizadas. Com um programa de identidade visual, ampliação de
horários, construção de estacionamentos e integração com o
transporte coletivo, elas com certeza atrairiam mais pessoas deste e
de outros municípios. Com isso, aumentaria o volume de negócios e de
empregos. A degradação seria mitigada. Outro efeito seria ampliar o
uso da boa estrutura de serviços ociosa nos fins de semana: hotéis,
táxis, restaurantes e equipamentos de lazer. Também muito
contribuiria para ressuscitar o Centro e seus entornos.
A
macrometrópole futebolística abriga times legendários. Futebol por
aqui sempre foi uma religião: possui seguidores fiéis e times com
títulos mundiais há mais de 50 anos: Palmeiras (1951), Santos
(1962/63), São Paulo (1992/93), Corinthians (2000). Teve Pelé.
Nenhum outro lugar do planeta chegou perto disso. Uma imagem que
poderia ser fortemente explorada. Qualquer empresa deliraria em ter
milhões de clientes cativos como as torcidas desses grandes times.
Mas os dirigentes não pensam assim. Míopes, estão destruindo esses
exércitos e essa paixão. Jamais se preocuparam em transformar suas
coleções de troféus em museus, criar lojas com seus produtos,
incentivar a visitação pública, a exemplo do que fazem tantos clubes
europeus, como o Barcelona. Isso geraria divisas, divulgaria as
marcas e o esporte, instigaria a auto-estima, criaria lazer para a
população, valorizaria o espaço e evitaria a degradação da cidade.
Nossa metrópole, a mais rica do Brasil tetracampeão, está
entre as mais importantes do circuito das cidades globais. Mas nem o
esporte do povo, e a sua memória, políticos e dirigentes conseguiram
preservar e enaltecer como patrimônio da cidade e do país. Ainda bem
que sobrou a fogueira de São João!
Tadeu Masano, doutor
em planejamento urbano pela FAU-USP, é professor na Fundação Getulio
Vargas de São Paulo e presidente da consultoria Geografia de
Mercado