são paulo mapa da mina - 27/6/2001


Negócio inflamável

O mercado de combustíveis vai pegar fogo

Por Tadeu Masano

Os postos de combustível vão pegar fogo na metrópole. Mas não se assuste: quem vai entrar em combustão são os negócios, não o produto. O mercado de distribuição de combustíveis já passou por grandes mudanças no início da década de 90. Os preços foram liberados e o poder das distribuidoras diminuiu. Mas isso não é nada perto das mudanças que vêm aí. Para começar, a crise de energia elétrica dará um grande impulso nos diversos usos do gás, inclusive como combustível. Na Argentina, 500 000 carros (10% da frota) são movidos a gás. Para abastecê-los, existem quase 1 000 estações de serviço. No Brasil, com 30 milhões de veículos, apenas 150 000 rodam a gás (0,5% da frota) e os postos não chegam a 100. A Grande São Paulo, que concentra mais de 25% dos automóveis do país e possui uma imensa frota de táxis, perueiros, empresas de logística e pequenas transportadoras, reúne elementos que viabilizam centenas de estações de serviço de gás natural.

Outra novidade será a entrada e a saída de gigantes do setor. A Shell começou a diminuir sua participação na distribuição (já vendeu para a Agip quase 500 postos, uma parcela significativa do total), enquanto bandeiras de origem francesa e holandesa, entre outras, estão com um pé no mercado brasileiro. Tem mais: vão se multiplicar as bombas de gasolina em supermercados. É que - uma mudança importantíssima - as grandes redes de varejo resolveram entrar de vez nesse mercado. No Carrefour a estratégia de instalar postos de combustível nos estacionamentos vem desde o nascimento da rede, na França. No Brasil, os postos instalados em 40 unidades do Carrefour respondem por cerca de 1,5% do consumo total. Outro gigante, o Pão de Açúcar, acaba de entrar no negócio inaugurando um posto-maracanã num Extra em Diadema, município da Grande São Paulo. Em pouco tempo a maioria dos 60 hipermercados de diferentes bandeiras existentes na metrópole abrigará estações de combustível.

A lógica por trás dessa guinada comercial obedece a dois motivos. Primeiro: os grandes supermercados recebem de 10 000 a 15 000 veículos por dia, enquanto um bom posto de rua atende menos de 500. O enorme volume permite a obtenção de lucros com preços menores. O custo mais baixo, aliado à garantia de qualidade do produto, resulta num diferencial claramente perceptível para o consumidor. O segundo motivo tem a ver com a legislação. Os revendedores que comercializam o combustível por um preço inferior ao valor-limite (atualmente, de 1,75 real no caso do litro de gasolina) obtêm um crédito do ICMS proporcional a esse abatimento. Os hipermercados que já se beneficiam de créditos do ICMS por causa de outros produtos recuperam a diferença automaticamente, enquanto os postos são obrigados a apresentar documentos provando que vendem combustível por preços inferiores ao teto.

A redução do horário de funcionamento dos postos de combustíveis, conseqüência da crise da energia elétrica, não provocará uma queda relevante nas vendas. Ao contrário, a medida favorece os donos desses estabelecimentos, já que reduz custos (e, com isso, empregos) e diminui a possibilidade de ampliação da concorrência pela disponibilidade do serviço (ou seja, o horário de funcionamento). Para o consumidor, que há três anos pagava menos de 70 centavos pelo litro de gasolina, fica decretado que não pode esquecer de pôr combustível até as 22 horas.

 


Tadeu Masano, doutor em planejamento urbano pela FAU-USP, é professor na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e presidente da consultoria Geografia de Mercado

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