são paulo mapa da mina - 22/7/2001![]()
Apartheid paulistano
É preciso agir: o mercado não vai
suportar tanta segregação
Por
Tadeu Masano
Há duas
maneiras de olhar para São Paulo. Uma delas é enxergar uma megacidade com
uma população três vezes superior à do Uruguai e PIB superior ao do Chile,
que detém um quinto da massa de salários e um quarto dos depósitos
bancários à vista do Brasil. Outra, analisar a ocupação do solo e
constatar quão desigual é a distribuição de seus recursos. São Paulo é uma
megacidade de extremos contrastes. E é aí que mora o perigo.
Dos 96 distritos da capital paulista, os 24 que abrigam a população de maior renda (alta e média) estão quase que limitados geograficamente por Lapa, Santa Cecília, Vila Mariana, Santo Amaro e Morumbi. Nessa mancha, onde 77% das construções são de alto padrão, vivem apenas 16% dos paulistanos e 60% das famílias da classe A. Somados, esses 24 distritos ocupam somente 13% do território municipal - o correspondente a uma cidade como Jundiaí. Mas seriam necessárias três Belo Horizonte para acomodar outros 48 distritos onde vivem 66% da população e 71 de cada 100 famílias de menor renda.
A ocupação do solo no município, como se vê, é o retrato acabado da segregação. As áreas do entorno do centro, com reduzida população, são as mais ricas e as que apresentam a maior densidade demográfica. As áreas mais periféricas e pobres tiveram forte aumento de população - mas são pouco adensadas, com baixo índice de verticalização. A leitura da distribuição da ocupação do solo pelo padrão de construção remete àquela velha constatação: a grande maioria da população mora onde pode, não onde gostaria. Ou seja: mora pior, com precárias condições de transporte, saúde e segurança. É um círculo perverso: o dinheiro público nunca é suficiente para atender longas redes de infra-estrutura. E cada vez mais a população de baixa renda é expulsa para regiões periféricas.
A lógica capitalista mapeia os negócios da cidade. Tanto a distribuição de agências bancárias quanto a de shopping centers seguem a geografia da renda. A distribuição um pouco menos concentrada dos hipermercados se deve ao fato de que as camadas de renda mais baixa chegam a gastar até a metade de seus rendimentos com alimentação. É isso que faz com que o varejo de alimentos se torne tão sedutor tanto para pequenas redes que se concentram na periferia quanto para as grandes, que, dominado o potencial das áreas mais ricas, para ali se dirigem. Mas quando se analisa a distribuição dos alunos pelas redes de ensino (pública ou privada), por exemplo, vê-se que mantém estreita correlação com os níveis de renda. Talvez esteja aí - nos investimentos em educação - a derradeira chance de romper com o endêmico apartheid que entrava o desenvolvimento do mercado. É uma ação que pode envolver o mundo corporativo. São Paulo possui 3 000 empresas privadas com mais de 100 funcionários cada uma. Juntas, empregam 1 milhão de trabalhadores. Possui também 2 200 escolas públicas com 2,2 milhões de alunos. Que tal cada empresa adotar uma escola? Seria possível colaborar na gestão, prover apoio técnico e, até, financeiro. Mais educação significa melhores postos de trabalho, aumento de renda e de consumo. E ainda salva o futuro.
Tadeu Masano, doutor em planejamento urbano pela FAU-USP, é professor na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e presidente da consultoria Geografia de Mercado